Diagnóstico do ecossistema de inovação de Porto Alegre identifica avanços e aponta prioridades para o futuro

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Estudo apresentado pelo Pacto Alegre reúne indicadores sobre talentos, investimentos, infraestrutura, ambiente institucional e qualidade de vida, além de propor caminhos para uma cidade mais inclusiva e resiliente

Como Porto Alegre pode transformar sua estrutura de inovação em desenvolvimento econômico, inclusão social e qualidade de vida? Essa é uma das questões centrais do Diagnóstico do Ecossistema de Inovação de Porto Alegre, apresentado pelo Pacto Alegre na última terça-feira (29), no Tecnopuc. O estudo conduzido pela professora Aurora Carneiro Zen, do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGA/UFRGS), analisa a evolução do ecossistema e identifica avanços, gargalos e oportunidades para os próximos anos.

O encontro também contou com a participação da professora Clarissa Stefani Teixeira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que compartilhou a experiência catarinense na construção de ambientes de inovação. Sua apresentação destacou a importância de conectar pessoas, conhecimento, instituições, infraestrutura, políticas públicas, empreendedorismo e diferentes territórios em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

O que o diagnóstico revela
O estudo está organizado em cinco dimensões: Talentos e Conhecimento; Capital Financeiro; Infraestrutura para Inovação; Institucional; e Interação e Qualidade de Vida. Em conjunto, elas permitem observar tanto os recursos disponíveis quanto as condições necessárias para a inovação gerar resultados mais amplos.

  1. Talentos e conhecimento
    Porto Alegre ampliou sua capacidade de formação de profissionais e produção de conhecimento. O percentual da população com ensino superior completo passou de 23%, em 2017, para 29%, em 2025. A cidade reúne 40 faculdades e centros de ensino e pesquisa, além de 141 programas de pós-graduação stricto sensu.

Outro indicador de destaque é a proporção de programas de pós-graduação com notas 5, 6 e 7 na avaliação da CAPES: 35,46% do total considerado pelo levantamento, a maior taxa entre as capitais analisadas.

O cenário, porém, apresenta desafios. Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de 2023 indicam dificuldades na educação básica, enquanto os depósitos de patentes caíram de 155, em 2017, para 128, em 2023. O diagnóstico também chama atenção para o risco de perda de profissionais qualificados diante da falta de oportunidades e de condições competitivas de trabalho.

Entre as prioridades estão o fortalecimento da educação, o desenvolvimento de competências digitais e empreendedoras e a aproximação entre a produção acadêmica e as necessidades do mercado e da sociedade.

  1. Capital financeiro
    O acesso a recursos é fundamental para transformar conhecimento em produtos, serviços e negócios. Nesse aspecto, o diagnóstico identifica avanços no financiamento à ciência e tecnologia e na estrutura de apoio ao empreendedorismo.

Os repasses federais para ciência e tecnologia passaram de R$ 14,84 por habitante, em 2018, para R$ 125,98, em 2024, colocando Porto Alegre na segunda posição nacional nesse indicador. O levantamento também registra a atuação de 12 bancos com linhas de microcrédito e fomento regional.

As aceleradoras Wow e Grow+ reúnem mais de 250 investidores e apoiam mais de 320 startups. Já a Companhia de Participação (CRP) aplicou R$ 473 milhões até 2025 por meio de três fundos de investimento.

Apesar desses recursos, permanecem barreiras para ampliar o financiamento de iniciativas inovadoras. Entre elas estão a ausência de personalidade jurídica própria do Pacto Alegre, que limita a captação direta de recursos e a contratação formal, e a falta de recursos no Fundo de Inovação Tecnológica (FIT) municipal. O estudo também identifica dificuldades de acesso a crédito, editais e visibilidade para empreendedoras de regiões periféricas.

  1. Infraestrutura para inovação
    A expansão da infraestrutura é um dos sinais mais visíveis da evolução do ecossistema. O número de startups mapeadas na Região Metropolitana passou de 168, em 2017, para 839, em 2025. No mesmo intervalo, os parques tecnológicos passaram de nove para 11, as incubadoras de 17 para 23 e os Núcleos de Inovação Tecnológica de cinco para 17.

O Instituto Caldeira se consolidou como um polo de inovação ao lado do Tecnopuc e dos parques vinculados à Aliança para a Inovação. Essas estruturas ampliam as possibilidades de conexão entre empresas, pesquisadores, empreendedores e investidores.

O próximo passo, entretanto, não depende somente da criação de novos espaços. O diagnóstico identifica a necessidade de integrar melhor as estruturas existentes, reduzir a fragmentação de iniciativas e melhorar a conexão por transporte público entre os diferentes polos.

A enchente de 2024 também evidenciou a vulnerabilidade da infraestrutura urbana diante de eventos climáticos extremos, reforçando a necessidade de incorporar a resiliência ao planejamento da cidade.

  1. Ambiente institucional
    O ambiente regulatório e a atuação do poder público influenciam diretamente a capacidade de desenvolver e atrair negócios inovadores. Porto Alegre conta com iniciativas voltadas à melhoria desse ambiente, como a legislação Creative POA, que reduziu a alíquota de ISS de 5% para 2% para empresas de base tecnológica, conforme as condições previstas na legislação.

O tempo médio de abertura de empresas chegou a 63,36 horas, aproximadamente 2,6 dias, segundo os dados apresentados no diagnóstico. Ainda assim, o indicador permanece acima dos tempos registrados em Curitiba, Florianópolis e Vitória.

O levantamento também identifica entraves relacionados à interpretação e à aplicação de leis, à aversão ao risco em instituições públicas e acadêmicas e à dificuldade de implementar compras públicas de inovação.

O fortalecimento da governança aparece, assim, como uma prioridade. A formalização de estruturas, a continuidade de programas e a criação de mecanismos que ofereçam segurança jurídica à experimentação podem contribuir para tornar o ambiente mais favorável ao desenvolvimento de soluções inovadoras.

  1. Interação e qualidade de vida
    A capacidade de atrair e reter talentos também está relacionada às condições de vida na cidade. O diagnóstico aponta avanços em indicadores de segurança, emprego, saúde e infraestrutura urbana.

Os crimes registrados passaram de mais de 86 mil, em 2017, para 53.075, em 2024. O desemprego recuou de 9,5%, em 2010, para 5,9% no fim de 2024. Porto Alegre também conta com mais de 204 km² de áreas verdes, 87,6 km de ciclovias e 420 pontos de Wi-Fi gratuito.

Por outro lado, os impactos das enchentes de 2024 evidenciaram fragilidades nos sistemas de drenagem e bombeamento. A segurança hídrica aparece entre as prioridades para o futuro, ao lado da saúde mental e do bem-estar dos profissionais.

O estudo também chama atenção para barreiras culturais que dificultam a colaboração, como a rivalidade entre grupos e a percepção de que determinados ambientes funcionam como círculos fechados. Ampliar a participação e criar oportunidades para novos empreendedores são medidas importantes para tornar o ecossistema mais acessível e diverso.

Três prioridades para a próxima etapa
A análise aponta três frentes para o amadurecimento do ecossistema de inovação de Porto Alegre: governança, inclusão territorial e resiliência climática.

Governança: o diagnóstico propõe formalizar o Pacto Alegre como Agência de Inovação, com personalidade jurídica, equipe profissional permanente e autonomia para captar recursos. Também recomenda reativar e capitalizar o FIT municipal e criar um fórum jurídico permanente para discutir os desafios relacionados às compras públicas de inovação.

Inclusão territorial: a proposta é ampliar a conexão de comunidades periféricas, como Restinga, Cruzeiro e Rubem Berta, com oportunidades de formação técnica, crédito e desenvolvimento de negócios. A iniciativa sugerida de criação do programa Portas Abertas busca aproximar novas startups, organizações sociais e lideranças jovens do ecossistema.

Resiliência climática: o estudo propõe mobilizar o conhecimento produzido pelas universidades e a capacidade de desenvolvimento das startups para enfrentar desafios relacionados à segurança hídrica, à drenagem e à defesa civil. Entre as possibilidades está a criação de provas de conceito (PoCs) urbanas de até R$ 500 mil para testar soluções climáticas nas bacias hidrográficas locais.

Essas frentes estão conectadas. Uma governança mais estruturada pode favorecer a continuidade de projetos e a captação de recursos; a inclusão territorial pode ampliar o acesso às oportunidades; e a resiliência climática pode mobilizar conhecimento e empreendedorismo em torno de uma necessidade concreta da cidade.

Os resultados recentes reforçam a trajetória de crescimento do ecossistema. Em maio deste ano, Porto Alegre subiu sete posições e alcançou o 196º lugar no Índice Global de Ecossistemas de Startups 2026, da StartupBlink, que avalia 1.556 cidades em 100 países. A capital gaúcha registrou o maior crescimento percentual entre as capitais brasileiras no ranking, com alta de 27,1% na pontuação total, e passou a figurar entre as cinco cidades brasileiras classificadas entre as 200 melhores do mundo para startups.

“O avanço de Porto Alegre no ranking da StartupBlink é fruto de um trabalho colaborativo e consistente. A criação do Instituto Caldeira, os investimentos no 4º Distrito e a realização do South Summit Brazil são marcos que vêm impulsionando nosso ecossistema. Este resultado indica que estamos no caminho certo para consolidar a cidade como um polo de inovação de referência global”, avalia Jorge Audy, Coordenador do Comitê Estratégico do Pacto Alegre e Superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do Tecnopuc.

Um ecossistema orientado por desafios comuns
A experiência de Santa Catarina apresentada por Clarissa Stefani Teixeira acrescenta ao debate a importância de compreender a inovação como uma construção coletiva e territorial. Pessoas, universidades, empresas, governo, ambientes de inovação e políticas públicas precisam atuar de maneira articulada, com visão de longo prazo e abertura à participação de diferentes comunidades.

Em Porto Alegre, o diagnóstico mostra que a cidade já dispõe de uma rede relevante de instituições, talentos, estruturas e iniciativas. O desafio agora é fortalecer as conexões entre esses recursos, reduzir as barreiras de acesso e orientar esforços para problemas que mobilizem diferentes setores.

Ao reunir evidências sobre a evolução do ecossistema e indicar prioridades para o futuro, o estudo oferece uma base para a continuidade do trabalho colaborativo do Pacto Alegre e de seus parceiros. A perspectiva é fazer com que a inovação ultrapasse os ambientes especializados e contribua cada vez mais para o desenvolvimento socioeconômico, a inclusão e a qualidade de vida em Porto Alegre.

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